Gestão fiscal do Paraná e cenário financeiro
O governador Ratinho Junior (PSD) encerra seu segundo mandato no governo do Paraná com avanços expressivos na área fiscal, embora com resultados menos robustos do que os obtidos nos primeiros quatro anos da gestão. O balanço dos oito anos mostra um estado que manteve sete anos consecutivos com as contas no azul, ampliou os investimentos e figura entre os estados com melhor classificação de crédito junto ao Tesouro Nacional.
Apesar disso, o desempenho fiscal nos últimos dois anos do mandato apresenta sinais de deterioração, com queda nos resultados primário e orçamentário, aumento dos gastos com pessoal e crescimento do déficit previdenciário. A análise faz parte da série Estado das Contas, que examina a saúde fiscal dos cinco estados mais populosos do país.
Recursos em caixa e déficits recentes
Dados públicos indicam que o Paraná encerrou 2025 com aproximadamente R$ 10 bilhões em recursos disponíveis em caixa, o maior valor entre todos os estados brasileiros nessa categoria, sem vinculação a despesas específicas. No entanto, esse montante representa uma queda real de 20% em relação ao final de 2022, quando o estado atingiu o maior resultado financeiro do atual governo. Em termos relativos, o caixa diminuiu de 24% para 15% da Receita Corrente Líquida (RCL) entre o fim do primeiro mandato e 2025, com estimativas preliminares apontando para nova redução em 2026.
Além disso, o estado registrou em 2025 seus primeiros déficits orçamentário e primário desde 2017. As projeções orçamentárias para 2026 indicam um resultado orçamentário equilibrado e um superávit primário. O resultado orçamentário considera a diferença entre receitas e despesas totais, enquanto o primário exclui operações financeiras e juros da dívida.
Expansão dos investimentos e mudanças fiscais
A Secretaria de Fazenda do Paraná destaca que a redução dos resultados fiscais nos últimos anos foi uma estratégia planejada para alterar a posição financeira do estado. Após acumular superávits e caixa robusto, o governo passou a utilizar parte desses recursos para ampliar investimentos e reduzir impostos.
Segundo a secretaria, a partir de 2026, as despesas crescem principalmente devido à expansão dos investimentos. A receita, por sua vez, perdeu dinamismo por conta da redução do IPVA de 3,5% para 1,9% e pelo término dos repasses compensatórios referentes à redução das alíquotas do ICMS sobre determinados serviços, estabelecidos pela Lei Complementar 194 de 2022 e vigentes entre 2023 e 2025.
Leia também: Investimentos em Infraestrutura Podem Impulsionar o Paraná à 3ª Maior Economia do País
Leia também: Renault Geely confirma investimento de R$ 2 bilhões em fábrica do Paraná e amplia produção de carros elétricos
Apesar da redução da alíquota do IPVA, a perda de arrecadação foi menor do que a prevista, beneficiada pelo retorno ao Paraná de veículos registrados em outros estados. Para as frotas de aluguel, a alíquota permaneceu em 1%.
O estado projeta alcançar em 2026 o maior volume de investimentos da sua história, impulsionado por obras estruturantes. Entre 2019 e 2022, os investimentos cresceram 37% em comparação ao período anterior, e a expectativa para o mandato 2023-2026 é de avanço de 32%, considerando as previsões orçamentárias. Os empenhos devem ultrapassar R$ 7 bilhões pelo segundo ano consecutivo.
A Sefaz-PR ressalta que, como os investimentos são despesas primárias, seu aumento reduz o resultado primário. Além disso, o resultado orçamentário sofre impacto quando recursos acumulados em exercícios anteriores financiam despesas atuais. Esse cenário foi previsto no planejamento para 2026, acompanhado de medidas de controle e preservação da liquidez.
Endividamento controlado e posição fiscal
Mesmo com a redução do caixa, o Paraná mantém recursos suficientes para se posicionar entre os estados com valor disponível superior às dívidas, junto a Espírito Santo, Amapá e Mato Grosso, que apresentam dívida líquida negativa. Em abril, o estado era credor líquido em 3% da RCL, com ativos superando em R$ 2,3 bilhões o valor devido. Ao final de 2025, essa diferença aumentou para R$ 3,5 bilhões, equivalente a 5% da RCL.
O limite de endividamento dos estados é de 200% da RCL, sendo o Rio de Janeiro o único que ultrapassa essa marca. A dívida bruta do Paraná vem em trajetória de queda constante desde o início do atual governo, passando de 63,6% em 2018 para 38,4% da RCL em 2025. Em agosto, a dívida com a União era de R$ 14,2 bilhões.
O estado optou por não aderir ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), aprovado em 2025, que renegocia dívidas com a União mediante redução de juros e contrapartidas em investimentos, especialmente na educação. A Secretaria da Fazenda avalia que as condições restritivas do programa não se alinham à situação fiscal do Paraná e seus objetivos de médio e longo prazo.
Leia também: Sandro Alex promete acelerar obras e investimentos para transformar Paraná na 3ª maior economia do Brasil
Leia também: Sergio Moro lidera no Paraná e mantém empate técnico com Sandro Alex no segundo turno
A gestão fiscal do Paraná é reconhecida nacionalmente pela robustez, com classificação A+ em Capacidade de Pagamento (Capag) pela Secretaria do Tesouro Nacional.
Gastos com pessoal e previdência
O gasto com pessoal no Paraná permaneceu praticamente estável no primeiro mandato, em comparação com o período anterior, mas deve crescer 30% no mandato 2023-2026. O déficit previdenciário dos servidores estaduais projetado para o orçamento atual é 40% maior do que em 2018.
O ano de 2022 marcou o melhor desempenho dos indicadores de gasto com pessoal (40,67% da RCL) e déficit previdenciário (8,60%) na atual gestão. A partir de 2023, ambos os números aumentaram, chegando a 42,41% e 9,40% em 2025, respectivamente, embora ainda estejam abaixo dos níveis de 2018.
A Sefaz-PR atribui o aumento dos gastos à reestruturação de carreiras e ao reajuste geral concedido em 2023, que impactou servidores ativos e inativos. A combinação da desaceleração da receita corrente líquida com o aumento da folha elevou o peso desses gastos na receita. Contudo, os indicadores permanecem dentro dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal e compatíveis com a sustentabilidade fiscal.
Licença do governador e cenário político
Ratinho Junior deixou o cargo no dia 17 para dedicar-se à eleição local, na qual apoia o deputado federal Sandro Alex (PSD). O candidato do governo aparece em terceiro lugar nas intenções de voto, atrás do senador Sergio Moro (PL) e do deputado estadual Requião Filho (PDT).
O candidato do PSD à Presidência, Ronaldo Caiado (GO), anunciou que Ratinho Junior será seu ministro da Infraestrutura em caso de vitória. A série Estado das Contas da Folha analisa a situação fiscal dos cinco estados mais populosos do país, que concentram mais da metade do eleitorado brasileiro.

