Um espetáculo que transforma narrativas históricas
O Festival de Dança de Londrina 2026 começou com uma atmosfera carregada de emoção e questionamentos. No Teatro Ouro Verde, na noite de 23 de outubro, mais de 600 pessoas acompanharam a abertura marcada por discursos e a apresentação do Ballet de Londrina. O espetáculo “A vida é um dia”, dirigido artisticamente por Renato Forin Jr. e coreografado por Alex Soares, trouxe uma montagem que revisita a história da cidade sob um olhar crítico e sensível, sendo uma das estreias mais significativas na trajetória da companhia, que já soma mais de três décadas.
O enredo acompanha a trajetória de uma senhora quase centenária, confinada em um leito de UTI durante a pandemia da covid-19. Entre lembranças e alucinações, ela retrocede no tempo, trazendo à tona momentos como a efervescência da vanguarda artística, a geada de 1975 e o processo de colonização de Londrina. A narrativa convida o público a repensar as versões oficiais da história local, questionando o que ficou oculto ou esquecido.
Repercussão entre o público e autoridades
Elza Correia, ex-vereadora e ex-deputada de Londrina, deixou o teatro profundamente tocada. Para ela, a qualidade técnica do espetáculo se une à importância de uma abordagem fiel e crítica da história da cidade. “É preciso conhecer a fundo para não celebrar de forma equivocada”, afirmou, ressaltando a necessidade de reconhecer uma Londrina mais complexa e verdadeira.
Do ponto de vista político, a vereadora Lenir de Assis destacou o caráter provocativo da obra. Segundo ela, a arte tem o poder de refletir questões sociais e políticas ainda presentes, como opressões, racismo, homofobia e fascismo. “O que vimos no palco representa corpos que continuam a sofrer essas violências hoje. Isso é política”, avaliou.
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Elementos simbólicos e resgate cultural
O palco ganhou vida com a presença de um vestido branco que percorre os corpos das bailarinas, simbolizando muito mais que um objeto: é um fio condutor da história da protagonista e, por extensão, das múltiplas mulheres londrinenses. Renato Forin Jr. conduziu a narrativa, ressaltando que a historiografia oficial muitas vezes apaga a diversidade e a riqueza cultural que antecederam a colonização.
O músico Breno Castelo Branco, que assistiu à estreia em agosto e retornou para o festival, comentou sobre o impacto da montagem. Para ele, o espetáculo não apenas dialoga com o presente político, mas também toca a vida cotidiana de cada pessoa, convidando a uma reflexão constante sobre o passado para construir o futuro.
Discurso e apoio institucional na abertura
A cerimônia de abertura contou com a coordenação de Danieli Pereira e discursos de autoridades como o secretário municipal de cultura, Marcos Antonio Castri, conhecido como Marcão Kareca, o vice-reitor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Miguel Belinati Piccirillo, e o próprio Renato Forin Jr., coordenador de comunicação e curador do festival.
Marcão Kareca enfatizou o papel fundamental do financiamento público para a cultura, afirmando que “a dança salva, aproxima e é política pública estrutural”. Já o vice-reitor da UEL reforçou o compromisso da universidade com a promoção cultural, destacando o festival como uma referência local, nacional e internacional.
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Fonte: jornalvilavelha.com.br
Forin Jr. leu o manifesto “Dançar, agir, pensar a golpes de martelo”, que reforça a urgência em decisões responsáveis para o futuro das próximas gerações. O manifesto será um elemento recorrente durante o festival, refletindo a importância de ações conscientes na arte e na sociedade.
Organização e parcerias do festival
O Festival de Dança de Londrina 2026 é coordenado por Danieli Pereira, com curadoria dividida junto a Renato Forin Jr. A produção é da APD – Associação dos Profissionais de Dança de Londrina e Região Norte do Paraná, com patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Londrina. O evento também conta com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, via Secretaria de Estado da Cultura do Paraná e Ministério da Cultura do Governo Federal, além da realização da HotMilk e PUC-PR. A Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina apoia a iniciativa, reforçando seu compromisso com o fortalecimento da arte local e regional.
O festival segue com uma programação que promete envolver o público em diferentes espaços e linguagens, ampliando o diálogo sobre história, cultura e política através da dança.

