Mais de 600 Agrotóxicos Aprovados em 2024 e Seus Efeitos no Ecossistema
Nos limites das vastas lavouras de soja no Cerrado, um silêncio ensurdecedor predomina, inquietando biólogos e especialistas em meio ambiente. O que parece ser apenas uma ausência de som é, na verdade, a ausência de zumbidos característicos das abelhas nativas, que antes circulavam livremente entre os fragmentos da Mata Atlântica e as áreas cultivadas. Enquanto esse desaparecimento ocorre de forma silenciosa, o Brasil registrou em 2024 a aprovação de mais de 600 novos agrotóxicos — um número alarmante que representa um crescimento de 19% em comparação ao ano anterior, conforme confirmado pelo Ministério da Agricultura.
Um estudo recente, publicado em abril de 2026 na revista Neotropical Entomology, revela um paradoxo preocupante: apesar do acúmulo de conhecimento científico sobre polinizadores, o Brasil falha em implementar políticas públicas eficazes para protegê-los. Os dados mostram que os polinizadores, incluindo abelhas, borboletas e até morcegos, são fundamentais para a reprodução de mais de 95% das plantas que consumimos. De acordo com o IBGE, cerca de 16% a 25% da produção agrícola nacional depende diretamente desses insetos. No cenário global, 17% do valor da produção agrícola está intrinsecamente ligado à polinização animal, um fator que, se comprometido, pode levar a uma elevação significativa nos preços dos produtos agrícolas.
A Proporção do Uso de Pesticidas no Brasil
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Fonte: omanauense.com.br
O Brasil, detentor de uma das maiores diversidades de abelhas nativas do mundo, se torna, ao mesmo tempo, o maior consumidor de pesticidas. Em 2021, foram aplicadas impressionantes 719,5 mil toneladas de pesticidas, um volume que supera a soma do consumo dos Estados Unidos e da China. A taxa de uso atinge 10,9 kg por hectare, muito acima dos 2,85 kg/ha dos EUA e 1,9 kg/ha da China. “Embora o Brasil dependa dos polinizadores, é um dos maiores usuários de pesticidas do mundo”, destaca Juliana Hipólito, uma das autoras do estudo da Neotropical Entomology.
Os impactos dos pesticidas vão além da morte imediata dos polinizadores. As abelhas nativas sem ferrão são especialmente vulneráveis a alterações subletais, que não são capturadas nos modelos de segurança atuais. Essas substâncias, consideradas seguras pela legislação nacional, podem comprometer o crescimento das larvas e a saúde das colônias, minando, assim, a capacidade de polinização.
Perda de Habitat e Mudanças Climáticas Agravam a Situação
A perda de habitat é uma preocupação crescente. A combinação de uso desenfreado de fertilizantes, desmatamento e as consequências das mudanças climáticas contribuem para o declínio das populações de polinizadores, como indicado em uma revisão publicada na revista Nature. No Brasil, a rápida destruição dos biomas do Cerrado e da Amazônia intensifica essa crise. O desmatamento não apenas elimina habitat, mas isola as populações, prejudicando o fluxo gênico e tornando as espécies mais suscetíveis a eventos climáticos extremos.
O estudo na Neotropical Entomology também faz um apanhado histórico das políticas relacionadas aos polinizadores, desde a Iniciativa Brasileira de Polinizadores, em 2000, até o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Insetos Polinizadores. Apesar de o Brasil participar ativamente das discussões globais, as iniciativas nacionais carecem de integração e monitoramento eficaz.
Recomendações para a Proteção dos Polinizadores
Jeferson Coutinho, pesquisador da Embrapa e coautor do estudo, enfatiza a necessidade de políticas públicas voltadas para a proteção dos polinizadores. Entre as sugestões estão a eliminação gradual de subsídios para agrotóxicos tóxicos, um programa nacional de monitoramento das populações de polinizadores e práticas agrícolas que preservem a vegetação nativa próxima às áreas cultivadas. Essas ações não apenas protegeriam as espécies, mas também garantiriam a sustentabilidade do próprio agronegócio.
Um estudo de 2024 indica que mais de 87% das plantas com flores e a grande maioria das culturas alimentares globais dependem da polinização. No Brasil, cerca de 60% das 141 espécies cultivadas para alimentação e biocombustíveis dependem desse serviço vital. A interdependência entre a natureza e a produção agrícola é clara, mas invisível e delicada.
A Luta Contra a Erosão Silenciosa
A ausência de regulamentação específica torna-se um desafio crítico. Uma lei que proteja efetivamente os polinizadores é essencial para garantir a continuidade de programas de proteção, evitando que sejam descontinuados com trocas de governo. Enquanto a Europa já estabeleceu marcos regulatórios eficazes, o Brasil ainda enfrenta um cenário de inação. Em 2024, o país atingiu um novo recorde na aprovação de agrotóxicos, um sinal preocupante em meio ao contínuo desaparecimento dos polinizadores.
Os pesquisadores documentam que o que está em curso não é uma crise futura, mas uma erosão silenciosa e crescente. As flores permanecem abertas, mas as visitas dos polinizadores estão se tornando cada vez mais raras.

