Diagnóstico comum, soluções frágeis
Os planos de governo dos candidatos à Presidência da República destacam, com intensidade, os desafios da aprendizagem no Brasil. Essa atenção é um avanço, considerando que em eleições anteriores o foco era direcionado a temas como a discussão de gênero e ideologia dos professores, conforme observa Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação. “Há uma convergência clara: a aprendizagem é o desafio central para o próximo ciclo”, diz ele.
Porém, apesar do consenso no diagnóstico, os caminhos propostos para superar essas barreiras são bastante diversificados e, em grande parte, insuficientes. “As propostas para melhorar a aprendizagem ainda são frágeis”, destaca Gontijo. Poucos candidatos abordam mudanças essenciais, como as no currículo ou nos sistemas de avaliação, que são fundamentais para a melhoria efetiva da aprendizagem.
Propostas recorrentes e controvérsias
Entre as ideias mais frequentes nos planos estão estratégias para alfabetização, a ampliação das escolas em tempo integral e o investimento em educação profissional e tecnológica. Essas medidas são geralmente vistas como positivas pelos especialistas. Entretanto, a aposta em escolas cívico-militares recebe críticas severas, considerada uma abordagem equivocada para garantir disciplina e qualidade no ensino.
Cláudia Costin, especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, reforça que a disciplina e o engajamento em sala não são garantidos pela presença de policiais militares, mas sim por um ensino significativo e professores valorizados. Mozart Neves Ramos, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto (SP), acrescenta que o modelo cívico-militar não responde às necessidades da realidade atual e não é adotado em países desenvolvidos.
Educação infantil: base para o futuro
Ramos destaca a importância de ampliar a oferta de creches, já que a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) ainda não foi atingida, e de garantir que a educação infantil promova o desenvolvimento integral da criança. “Essa etapa é estratégica para o futuro do País. A qualidade da educação infantil deve estar centrada no desenvolvimento pleno da criança”, explica.
Leia também: PNAE impulsiona segurança alimentar e fortalece economia local em Alagoas
Fonte: alagoasinforma.com.br
Leia também: Desfile Cívico de Itabuna celebra a cultura nordestina com participação de escolas e comunidade
Fonte: bahnoticias.com.br
Além disso, Gontijo ressalta a importância da alfabetização nessa fase, apontando que o Brasil avançou nesse desafio, mas é necessário manter o esforço e elevar o nível esperado para a alfabetização na idade certa.
Ensino fundamental e a prioridade do tempo integral
No ensino fundamental, a escola em tempo integral surge como prioridade absoluta para o próximo governo, segundo Cláudia Costin. Ela esclarece que esse modelo deve ir além do tradicional ensino em dois turnos com oficinas no contraturno. “O ideal é uma jornada escolar de sete horas, com aulas e oficinas distribuídas nos dois períodos, contemplando recuperação de aprendizagem e métodos mais práticos e dialogados”, detalha.
Outros pontos que demandam atenção incluem a alfabetização para promover equidade entre os estados, a colaboração entre estados e municípios para resultados mais eficazes e a melhoria na formação docente, especialmente em Matemática.
Ensino médio: ajustes necessários e ampliação do tempo integral
Para o ensino médio, ampliar as escolas em tempo integral e monitorar as reformas implementadas são medidas essenciais, segundo Gontijo. Mozart Neves Ramos acrescenta que o currículo precisa passar por ajustes para se alinhar às novas tecnologias e às demandas dos jovens, que buscam uma escola que se conecte com suas vidas.
Outro destaque é o crescimento da educação profissional integrada ao ensino médio, embora ainda desigual no país. Ramos cita o exemplo do Piauí, que alcançou 100% das matrículas em tempo integral com cursos técnicos, contrastando com estados que apresentam índices muito inferiores. O especialista também enfatiza a necessidade de rever incentivos para combater a evasão escolar.
Ensino superior: formação docente e alinhamento ao mercado
Cláudia Costin aponta que a formação de professores nas universidades e a valorização da carreira docente são fundamentais para o ensino superior. “O professor precisa ser especialista na área de conhecimento e também em como crianças e adolescentes aprendem”, afirma.
Mozart Neves Ramos destaca a urgência de reformar os cursos superiores, focando menos em conteúdo e mais nas competências e habilidades necessárias para o mercado de trabalho. Ele propõe a criação de um observatório de egressos para alinhar os currículos com as demandas reais do mundo profissional.
Essas discussões evidenciam que, apesar dos avanços no diagnóstico dos problemas educacionais, as propostas para enfrentá-los ainda precisam ser fortalecidas e detalhadas para garantir impactos concretos na aprendizagem dos estudantes brasileiros.

