O Comércio Global e Seus Gargalos
A história nos mostra, desde o século XV, que o controle sobre os estreitos marítimos é fundamental para o comércio global. A geopolítica atual reafirma essa lição ao evidenciar que quem domina essas passagens, controla o fluxo comercial e, por consequência, o poder global. Isso ficou claro durante o período de dominação portuguesa sobre Ormuz, Goa e Malaca, que garantiram a eles a chave do comércio asiático. Seis séculos depois, as principais rotas comerciais ainda giram em torno de sete gargalos, cuja importância foi relembrada pela crise gerada pela guerra no Golfo Pérsico em março de 2026.
Atualmente, cerca de 80% do comércio mundial, em volume, é realizado por via marítima, dependente de pontos estratégicos como os estreitos de Ormuz, Bab-el-Mandeb, Suez, Malaca, Bósforo, Gibraltar e o Canal do Panamá. Esses chokepoints representam locais onde a geografia se traduz em poder econômico. O controle sobre esses pontos não requer enormes orçamentos militares; é suficiente ter uma posição geográfica estratégica e a vontade de exercer influência sobre ela.
A Vulnerabilidade dos Insumos no Brasil
Enquanto no Brasil se costuma focar no acesso aos mercados compradores, a vulnerabilidade na importação de insumos é um aspecto crítico que merece mais atenção. A crise de 2026 escancara essa fragilidade, especialmente em relação ao petróleo e aos fertilizantes.
O Brasil se tornou uma potência petrolífera, alcançando um recorde histórico de 3,8 milhões de barris diários em 2025, impulsionado pelo pré-sal. Entretanto, apesar de ser o sétimo maior consumidor mundial, com 2,6 milhões de barris diários, o país enfrenta um superávit apenas em petróleo bruto, não em derivados. A capacidade de refino nacional é insuficiente para processar todo o petróleo pesado, o que resulta em uma dependência crítica de importações, especialmente de diesel, que é essencial para o agronegócio.
As importações de diesel representam cerca de 25% do consumo interno. Nos últimos dez anos, a demanda por diesel importado quase triplicou, refletindo a centralidade desse combustível para o plantio, colheita e transporte no setor agrícola. O mesmo se aplica ao GLP e ao querosene de aviação, que também apresentaram dependências significativas.
Os Fertilizantes e Seus Riscos
A dependência do Brasil em fertilizantes é alarmante. O país importa 85% de todos os fertilizantes que utiliza, e o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte desses produtos, elevou os preços da ureia drasticamente.
Como um dos maiores exportadores de produtos agrícolas, o Brasil precisa de uma estratégia de segurança de abastecimento mais robusta. Em 2025, o Brasil exportou US$ 12,6 bilhões em produtos agropecuários para o Oriente Médio, com o Irã representando um mercado significativo. A crise em Ormuz não afeta apenas a oferta de insumos, mas também o lado da demanda, já que a suspensão de importações pode comprometer a competitividade do agronegócio brasileiro.
Medidas para Mitigar os Impactos
Uma alta persistente nos preços dos combustíveis fósseis pode impulsionar a adoção de biocombustíveis, como etanol e biodiesel, que além de serem sustentáveis, oferecem uma alternativa viável diante da crise. O Brasil, que já mistura 30% de etanol na gasolina e 15% de biodiesel no diesel, pode reduzir sua exposição a choques externos.
Contudo, a dependência de fertilizantes importados é uma preocupação que não deve ser ignorada. A diversificação de fornecedores, o aumento da produção interna e a criação de reservas estratégicas são medidas cruciais para garantir a segurança alimentar e a competitividade do agronegócio brasileiro.
A Necessidade de Mudança
Um país que produz 350 milhões de toneladas de grãos por safra e alimenta mais de 1 bilhão de pessoas não pode conviver com uma dependência de 85% em fertilizantes. A geopolítica muda rapidamente e, sem uma estratégia sólida de abastecimento, o Brasil continuará vulnerável a cada turbulência nos gargalos globais. A lição é clara: para garantir a segurança do agronegócio, é preciso agir agora.

