Conflito de Interesses na Criação do Parque Nacional do Albardão
Recentemente, o governo federal anunciou a formação do Parque Nacional do Albardão e da Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão, localizados em Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul. Essas duas unidades têm como objetivo proteger mais de 1 milhão de hectares no extremo sul do Brasil e representam uma vitória de longa data para ambientalistas. Contudo, a criação do parque gerou desconforto entre setores do agronegócio, pesca e energia, que estão mobilizando esforços para reverter essa decisão, com o apoio de alguns parlamentares.
Dentre os opositores, destaca-se o deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS), membro da bancada ruralista. Ele apresentou o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 106/2026, que visa anular a criação das referidas unidades de conservação, de acordo com informações do site ((o))eco. O deputado argumenta que a criação do parque e da APA compromete “atividades produtivas tradicionais, especialmente a pesca artesanal e industrial”, além de ameaçar o desenvolvimento econômico da região, afetando projetos relacionados à geração de energia renovável, como parques eólicos offshore e pesquisas de petróleo na Bacia de Pelotas.
Na defesa de seu projeto, Moreira afirma que a nova área de conservação geraria “restrições severas aos direitos de propriedade” e “impedimentos a atividades econômicas legítimas”. Ele também ressalta que a criação do parque inviabilizaria “projetos de grande porte com licenciamento já em andamento no IBAMA”, e que a área é considerada de altíssimo potencial para a instalação de parques eólicos.
Resposta das Organizações Ambientais
Em contraposição às afirmações do deputado, Angela Kuczach, diretora da Rede Pró-UC e uma das coordenadoras do movimento SOS Oceanos, defende que a criação do parque e da APA não interfere nas atividades econômicas mencionadas. Ela destaca que as áreas de interesse para os parques eólicos offshore estão localizadas fora do território do Albardão, conforme relatado pelo O Globo.
O Parque Nacional e a APA têm o intuito de proteger porções marinhas e costeiras do litoral sul do Rio Grande do Sul, essenciais para a reprodução e alimentação de diversas espécies. Entre elas, 25 estão ameaçadas de extinção, como a toninha, a raia-viola, o cação-martelo, o largartinho-da-praia e o sapo-boi, conforme informações de fontes como Money Times e ((o))eco.
A toninha, em particular, ocupa um lugar de destaque nessa lista, sendo classificada como “criticamente em perigo” pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). O professor e pesquisador Eduardo Secchi, do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), explica que a sobrevivência da espécie na região está diretamente ligada ao fato de que sua população é compartilhada com o Uruguai.
“Atualmente, o Uruguai contribui para o aumento da população de toninhas, enquanto o Brasil, de certa forma, atua como um sumidouro. Essa situação é resultado de uma gestão inadequada da pesca, que muitas vezes ignora as normas estabelecidas, como o uso de redes que não atendem aos padrões permitidos”, esclarece Secchi.
Importância da Criação do Parque
O Parque Nacional do Albardão, portanto, emerge como uma iniciativa crucial para a conservação ambiental, não apenas para proteger espécies ameaçadas, mas também para assegurar a preservação dos ecossistemas marinhos da região. À medida que interesses econômicos se chocam com a necessidade de proteção ambiental, a discussão sobre o futuro do parque se intensifica, refletindo um dilema comum em diversas áreas do Brasil.
Enquanto isso, as lutas entre ambientalistas e setores produtivos continuarão a moldar o debate sobre desenvolvimento sustentável, demonstrando que a preservação do meio ambiente e atividades econômicas podem coexistir, desde que haja diálogo e compromisso com boas práticas.

