Denúncias de Intimidação e Desrespeito
A Polícia Federal (PF) de Londrina está investigando um caso de violência política de gênero que supostamente ocorreu na Câmara Municipal de Tamarana, situada na Região Metropolitana de Londrina. Os vereadores Mário Cesar Fabiano (PSDB) e Anauto Souza de Gouvea (Republicanos) são os alvos da apuração, com seus celulares sendo apreendidos na última quinta-feira (19) durante a Operação Liberdade Democrática. As vereadoras Angélica de Oliveira Lima e Jislaine Pereira Ferraz, ambas do PSD, relataram que desde o início de seus mandatos em 2021, têm enfrentado ofensas e tentativas de silenciamento por parte dos colegas vereadores.
Os relatos das parlamentares apontam que, embora o desrespeito seja uma prática comum entre alguns vereadores, as ações de Fabiano e Gouvea se destacam pela gravidade. Angélica Lima, por exemplo, mencionou que Anauto do Incrão, enquanto presidia a Câmara entre 2021 e 2022, teria praticado violência política de gênero em diversas ocasiões. “Ele me disse que ‘a senhora não vai falar’ e chegou a cortar meu microfone durante as sessões, sem mencionar que não tomou medidas contra as agressões de outros vereadores”, relembrou Lima.
Impactos Profundos na Atuação Política
A situação se agravou com um incidente envolvendo o vereador Tega Fabiano, que levou Angélica a registrar um boletim de ocorrência. “Infelizmente, fui ameaçada. Ele fez questão de afirmar que eu não poderia sequer entrar na sala da presidência e que todos os meus pedidos não seriam atendidos, simplesmente dizendo ‘faz e fica esperando’”, lamentou.
A vereadora destaca que essa violência verbal teve um “impacto avassalador” em sua trajetória. “Os ataques do vereador Mário Cesar Fabiano não só afetaram minha reputação, como também causaram danos irreparáveis à minha vida como mãe e educadora, além de prejudicar minha atuação como representante da comunidade de Tamarana”, desabafou.
A Investigação e o Clima Hostil
A FOLHA teve acesso a uma lista elaborada pelos advogados das vereadoras, que foi solicitada pela PF, contendo links de quatro sessões ordinárias disponíveis no canal do YouTube da Câmara Municipal. A advogada Ana Carolina Martinez indicou sete momentos que considera evidências de violência política de gênero, incluindo cortes de microfone durante os discursos e o uso de termos diminutivos como “professorinhas”. Segundo ela, os vídeos, que são públicos, estão sendo analisados para fundamentar a denúncia contra os vereadores.
Com o avanço das investigações, Lima e Ferraz afirmam que o ambiente na Câmara se deteriorou, fazendo com que se sintam “ostracizadas e desamparadas”. Ambas relataram que outros parlamentares têm zombado delas, dizendo “procure seus direitos” de forma sarcástica, e que o clima de deboche persiste. “Fomos chamadas de ‘sem educação’, ‘indecentes’ e até ‘cara lavada’. Esses comentários visam desmerecer nosso trabalho, como se não houvesse consequências, já que dizem que nada vai acontecer”, contaram as vereadoras.
Perspectivas de Justiça e Reações do Legislativo
Representando sua colega, Angélica Lima expressou um “sopro de esperança e justiça” com o prosseguimento da investigação. “Estamos determinadas a lutar para que a Câmara Municipal de Tamarana seja um espaço seguro e respeitoso para todas as mulheres”, enfatizou.
Possível Consequência Penal para os Aflitos
O advogado de Mário Cesar Fabiano, Maurício Carneiro, contestou as acusações, afirmando que “não há qualquer tipo de descumprimento da legislação por parte de Mário”. Carneiro classificou a operação da PF como “totalmente desnecessária”. Em fevereiro deste ano, o vereador já havia sido objeto de medidas cautelares que o impedem de manter contato com Angélica e Jislaine fora do ambiente legislativo e de assumir a presidência da Câmara durante a investigação. O não cumprimento dessas condições pode resultar na prisão preventiva do indiciado.
A advogada das vereadoras, por sua vez, argumentou que essas medidas são essenciais para sinalizar ao Legislativo que a violência de gênero não será mais tolerada, e que haverá consequências tangíveis para quem a comete. Referindo-se às declarações de Carneiro sobre a natureza acalorada das disputas no parlamento, ela observou que “os delitos vão além da mera polarização política, já que apenas as mulheres estão sendo alvo de discriminação e silenciamento durante as sessões, o que não ocorre com os homens do mesmo partido (PSD)”. De acordo com o Código Eleitoral, caso condenados, Fabiano e Gouvea podem enfrentar penas de reclusão de um a quatro anos, além da possibilidade de perder seus cargos.

