Candidaturas em Debate
Curitiba – A indefinição do governador Ratinho Junior (PSD) sobre seu sucessor e a recente filiação do senador Sergio Moro ao PL estão criando um cenário de polarização entre candidatos de direita na disputa pelo governo do Paraná neste ano. Especialistas consultados pela FOLHA alertam que o governador pode ter deixado passar a oportunidade de definir um candidato com antecedência, mas ainda possui força política para alavancar sua escolha nas pesquisas, visando superar o ex-juiz da operação Lava Jato, que enfrenta resistência em diversos setores políticos e é visto como um “novato” no ambiente.
Com o horizonte até o final de 2025 aparentemente favorável ao candidato apoiado por Ratinho Junior, que pode ser o secretário das Cidades, Guto Silva; o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi; ou o ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca, a dinâmica política mudou com a escolha de Moro pelo PL. As pesquisas de intenção de voto até o momento mostram Moro na dianteira, e sua busca por apoio no Estado inclui deputados estaduais que, até recentemente, eram aliados de Ratinho.
Divisão Entre Lideranças
Uma clara demonstração dessa divisão no atual grupo no poder no Paraná se deu na última quarta-feira (25), em Curitiba. Na ocasião, 48 dos 53 prefeitos eleitos pelo PL em 2024 se desfiliaram do partido para apoiar o candidato de Ratinho Junior, cuja identidade ainda está em aberto. A expectativa é que essa divisão se amplie, uma vez que Greca se uniu ao MDB e Curi pode migrar para o Republicanos na busca de uma candidatura ao governo.
O analista político e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Elve Cenci, observa que a popularidade de Moro se deve mais ao seu discurso antipetista do que a articulações políticas robustas. Para ele, o ex-juiz não demonstra liderança carismática e tem dificuldades em formar alianças. “Moro não é visto como uma figura confiável por muitos na classe política. Seu histórico e sua postura extremista dificultam a criação de um apoio sólido ao seu redor”, destaca Cenci.
Estratégias de Poder
Cenci ainda aponta que a recente movimentação do senador Flávio Bolsonaro (RJ) em relação a Ratinho Junior reflete uma “estratégia punitiva”. Após ser convidado a ser vice na chapa do PL e declinar, Ratinho não assegurou um apoio para a candidatura presidencial do PL, o que adiciona complexidade ao cenário eleitoral. “Flávio Bolsonaro percebeu que a candidatura de Ratinho poderia competir diretamente por votos, o que motivou essa ação”, afirma.
Um dos principais receios entre a elite política paranaense é a possibilidade de um governo sob a liderança de Moro. Cenci ressalta que o Paraná sempre teve um grupo político dominante, e qualquer mudança nesse eixo pode gerar insegurança. “Moro não se encaixa no modelo tradicional de governança, que busca diálogo e consenso. Seu estilo parece mais alinhado ao modelo bolsonarista, caracterizado por um círculo restrito de apoio”, explica.
Desafios para o PL
O cientista político Doacir Quadros critica a fragilidade do PL, evidenciada pela saída dos prefeitos e pela falta de uma ideologia clara. Ele argumenta que o partido, que deveria ter uma base programática sólida, está atolado em discordâncias internas e estratégias meramente eleitorais. “O PL não possui um direcionamento ideológico que una seus membros, e a debandada de prefeitos é um sintoma dessa crise”, afirma Quadros.
Além disso, Mário Sérgio Lepre, professor da PUCPR, ressalta que a definição tardia de um sucessor por Ratinho Junior representa um erro estratégico. “Ele deveria ter anunciado seu candidato em 2024, o que evitaria a fragmentação do grupo político”, sugere. Apesar de Moro liderar as intenções de voto, Lepre acredita que, com a escolha certa, a candidatura de Ratinho Junior pode ainda ter um impacto significativo.
Possíveis Candidatos
Com a saída de Greca do PSD e a fraca performance de Guto Silva nas pesquisas, o prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), surge como um nome promissor que poderia unificar a base de apoio. Ratinho Junior estaria tentando convencê-lo a deixar o cargo até abril para concorrer ao governo. “A escolha de Pimentel poderia atrair outros nomes importantes, mas se ele não for capaz de unir o grupo, corre-se o risco de Curi se juntar ao Republicanos e dividir ainda mais os votos”, afirma Lepre.
Por fim, Lepre menciona que a candidatura de Ratinho Junior à Presidência poderia, potencialmente, atuar como uma terceira via, desviando votos tanto de Flávio Bolsonaro quanto de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “A presença de Ratinho no debate pode complicar a situação para ambos os lados, especialmente considerando os desafios que Lula enfrenta atualmente”, conclui.

