A Revolução do Multi-club Ownership
O futebol brasileiro, que durante décadas foi sustentado por clubes associativos fortemente conectados a suas torcidas e identidades regionais, agora enfrenta uma nova lógica de poder. Embora o modelo antigo tenha raízes culturais profundas, ele se mostrou insuficiente para lidar com as crescentes dívidas e gestões instáveis, além de não permitir a competição justa com clubes europeus.
A implementação da Lei da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) em 2021 trouxe uma reviravolta significativa. Essa legislação permitiu que os clubes se tornassem empresas, atraindo investidores e inaugurando um sistema que já era tendência no futebol mundial: o multi-club ownership (MCO). Esse modelo, em que grupos controlam vários clubes por todo o globo, está se difundindo rapidamente no Brasil, com a entrada de entidades como City Football Group, Red Bull, Eagle Football e 777 Partners.
O impacto desse novo sistema não se limita apenas ao aspecto financeiro; é também estrutural e cultural, alterando a maneira como o futebol é consumido e acompanhado. Além disso, há uma crescente curiosidade sobre como plataformas de apostas, como a Superbet, estão se integrando a esse ecossistema esportivo globalizado.
Atraindo Investimentos com a SAF
Antes da SAF, investir em clubes brasileiros era considerado um campo arriscado, marcado por dívidas históricas e falta de transparência. A nova legislação mudou radicalmente essa situação. Com a separação dos passivos antigos do novo modelo empresarial, a SAF oferece um “reset financeiro”. Isso permitiu que investidores adquirissem ativos mais limpos e sustentáveis, com regras claras de governança e a possibilidade de captar recursos.
Esse novo ambiente transformou o Brasil em um mercado atraente, não apenas pelas grandes torcidas e talentos em campo, mas pela possibilidade de um investimento mais previsível e seguro. Nesse contexto, os grupos de multi-clubes começaram a aparecer com força.
Exemplos de Sucesso: Bahia e Red Bull Bragantino
Um dos casos mais emblemáticos é a entrada do City Football Group no Bahia, que adquiriu cerca de 90% da SAF do clube em uma operação avaliada em cerca de 200 milhões de dólares. Essa operação não apenas trouxe capital, mas também integrou o Bahia a uma rede global que inclui clubes como Manchester City e Girona, permitindo acesso a gestão padronizada, scouting global e desenvolvimento de jogadores.
Enquanto isso, o Red Bull Bragantino, que passou por uma transformação significativa desde 2019, tornou-se um exemplo consolidado de MCO no Brasil. O clube, que era modesto há poucos anos, agora é reconhecido por seu recrutamento de jovens talentos e pela aplicação de análises de dados para melhorar seu desempenho. Com uma infraestrutura aprimorada e uma presença constante na elite do futebol, o Bragantino se estabeleceu como um hub de desenvolvimento de jogadores com forte conexão com o mercado europeu.
Desafios e Controvérsias em Clubes como Botafogo e Vasco
Por outro lado, a situação do Botafogo sob a gestão da Eagle Football apresenta uma realidade mais complexa. Com a chegada de investimentos significativos, o clube alcançou títulos importantes e melhorias financeiras. No entanto, também enfrentou disputas judiciais e problemas financeiros que colocaram o projeto sob pressão.
Da mesma forma, a experiência do Vasco da Gama com a 777 Partners demonstra como o MCO pode falhar. A promessa de revitalização foi ofuscada por problemas financeiros e disputas legais, levantando questões sobre a solidez financeira dos investidores e a dependência excessiva de grupos externos.
Os Benefícios e Riscos do Multi-club Ownership
Ainda assim, os benefícios do MCO são inegáveis, com a profissionalização da gestão, acesso a capital internacional e melhorias na infraestrutura e tecnologia. A Série A do Campeonato Brasileiro, por exemplo, mostrou um crescimento notável nas receitas, refletindo este novo paradigma.
Entretanto, a perda de identidade dos clubes é uma preocupação válida. Torcedores temem que seus times se tornem meras peças de um sistema maior, onde decisões não são mais tomadas localmente. Além disso, a potencialidade de conflitos de interesse entre clubes de um mesmo grupo levanta questões sobre a integridade das competições esportivas.
A Reação das Torcidas e o Futuro do Futebol no Brasil
As reações das torcidas variam bastante. Enquanto em alguns casos, como o Bragantino, houve uma aceitação total, em outros, como no Botafogo, o apoio é condicionado a resultados. Em clubes tradicionais, como Flamengo e Corinthians, observa-se uma resistência significativa à ideia de se tornarem SAF.
Essa resistência é expressa em protestos, boicotes e disputas internas, indicando que os torcedores não apenas desejam investimento, mas exigem transparência e respeito à história de seus clubes.
O futuro do multi-club ownership no Brasil é incerto, mas está longe de ser uma tendência passageira. A combinação entre da necessidade de investimento e a preservação da identidade dos clubes será crucial. Se o Brasil conseguir encontrar uma sinergia entre esses fatores, poderá se afirmar como um dos principais centros do futebol global.

