Greve de Professores Ameaça Últimos Dias de Ratinho Jr no Governo
Curitiba – No momento em que se prepara para deixar o governo e concorrer nas eleições de outubro, o governador Ratinho Junior (PSD) poderá enfrentar uma greve na rede estadual de ensino. Em assembleia realizada no último sábado (21), professores e professoras decidiram suspender a paralisação prevista para esta segunda-feira (23). No entanto, a categoria aguarda que o governo encaminhe um projeto visando a reposição da inflação e a equiparação salarial à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). A expectativa é que essa proposta seja aprovada até 4 de abril, prazo limite para desincompatibilização do governador antes de sua candidatura à Presidência da República pelo PSD.
A presidente da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto, destacou os avanços nas negociações: “Conseguimos do governo a instalação de mesas de negociação e a confirmação de que as propostas relativas aos itens centrais da nossa pauta serão encaminhadas para votação até o dia 4 de abril.” Caso as demandas não sejam atendidas, o sindicato poderá convocar novas assembleias e planeja uma vigília na Alep nos dias 24 e 25.
A APP-Sindicato aponta que, desde 2016, as perdas salariais dos professores somam 47%, uma vez que o governo não tem conseguido garantir a reposição integral da inflação. Em 2025, foi concedido um reajuste fixo de R$ 250 para docentes com carga de 20 horas semanais e R$ 500 para aqueles com 40 horas, o que, segundo o sindicato, teve efeito negativo nos salários dos professores que já recebem mais, pois seus reajustes foram menores.
Embora tenha aprovado um indicativo de greve em 14 de março, as negociações progrediram na última semana. “As reivindicações começaram a tramitar com urgência e a liderança do governo garantiu que todos os projetos serão enviados para votação dos deputados dentro do cronograma eleitoral”, afirmou Walkiria Mazeto.
Entre as principais demandas dos profissionais da educação estão a reposição das perdas inflacionárias, reformulação da carreira docente com equiparação salarial, correção das tabelas de salários e o enquadramento por tempo de serviço dos funcionários das escolas. Outros pontos discutidos incluem a reposição salarial para aposentados, uma lei que assegure correção para inativos sem paridade e o estabelecimento de desconto previdenciário apenas sobre valores acima do teto do INSS, fixado em R$ 8.475,54. O descongelamento de quinquênios e anuênios, que ficaram congelados durante a pandemia, também está na pauta.
Conforme Walkiria Mazeto, a proposta que o governo está considerando foi elaborada por um grupo formado por representantes do sindicato e das secretarias de Educação (Seed), Fazenda (Sefa) e Administração e Previdência (Seap). “A proposta foi construída com consenso entre os técnicos das secretarias, está dentro do que é possível”, afirmou a presidente da APP-Sindicato. “O governo tem optado por reestruturar as carreiras nos últimos anos e já modificou 19 delas; resta apenas a nossa. A meta é igualar os salários dos professores aos de outros servidores com o mesmo nível de escolaridade.”
De acordo com um levantamento do movimento Profissão Docente, que reúne organizações do terceiro setor, o salário inicial na rede estadual de ensino do Paraná é um dos mais baixos do Brasil, ocupando a terceira posição. Atualmente, o valor é de R$ 4.920,55, superando apenas Minas Gerais (R$ 4.867,97) e Rio de Janeiro (R$ 4.867,77). Em contraste, o Mato Grosso do Sul apresenta o maior salário inicial, de R$ 13.007,12.
O líder da base governista na Alep, deputado Hussein Bakri (PSD), comprometeu-se a aprovar todos os projetos antes do dia 4 de abril. “Não temos o poder de elaborar um projeto de lei para aumentar os salários. Precisamos convencer e dialogar com o governo. Nos próximos dias, a expectativa é de que todos os projetos que envolvem funcionalismo, universidades e carreiras do magistério sejam enviados. Faltam apenas alguns ajustes, mas vamos acelerar a votação”, afirmou Bakri.
A proposta de equiparação salarial dos professores com outras categorias já está sob análise da Seap, que deve elaborar um relatório sobre o impacto nas previdências. Todos os projetos necessitarão passar pela Casa Civil antes de serem enviados ao Legislativo.
Em nota, o governo do Paraná reafirmou seu compromisso com o diálogo, mas ressalta que as ameaças de greve na rede estadual de ensino e na UEL têm “motivações eleitorais”. “O governo lamenta essas ameaças e as pressões dos sindicatos, que parecem ter um viés político.”
O deputado Arilson Chiorato (PT), líder da oposição na Alep, afirmou que os dados apresentados em fevereiro pelo secretário da Fazenda, Norberto Ortigara, comprovam que o governo possui condições de atender às reivindicações dos profissionais de educação. “Há recursos disponíveis; o que falta é vontade política. Os servidores demandam direitos, respeito e justiça. As perdas salariais resultam em salários corroídos, aumento no custo de vida e dificuldades financeiras. O governo deve decidir de que lado está: do grande capital, que se beneficia com bilhões em renúncia fiscal, ou dos servidores que fazem o Paraná funcionar.”
A última greve dos professores ocorreu em junho de 2024, quando a Alep aprovou o projeto que permitia a terceirização da gestão de escolas estaduais. Na ocasião, os servidores ocuparam a galeria da Assembleia para tentar impedir a votação, que foi realizada remotamente, com os deputados em seus gabinetes.

