Da infância humilde ao primeiro contato com a tecnologia
Clemilson Correia transformou a pouca estrutura material da juventude em motivação para liderar uma multinacional de inteligência tecnológica. Sua história, contada no podcast Ponto a Ponto, revela uma caminhada de três décadas que começou nas ruas de Maringá, onde trabalhou como panfleteiro e monitor de estacionamento rotativo, até consolidar a Buysoft entre as empresas de maior crescimento nas Américas, reconhecida em rankings do Financial Times.
Desde o início da entrevista, ele desmonta a falsa ideia de sucesso rápido tão comum nas redes sociais. “Dormir pobre e acordar rico com pequenas ações não é realidade”, afirma. Para ele, o sucesso depende de três elementos: tempo, fé — entendida como a convicção de seguir no projeto mesmo em momentos difíceis — e amor, que é uma decisão e compromisso racional. “A combinação desses fatores torna o alcance do objetivo inevitável”, resume.
Disciplina familiar e a paixão pela informática
Filho de Seu Arlindo, mestre de obras rigoroso, Clemilson cresceu numa casa modesta onde o estudo era exigência. O pai impunha o aprendizado da tabuada, mesmo que isso significasse que ele estudasse no banheiro, espaço mais isolado da casa. A lição era clara: o conhecimento confere poder. “Nunca passei fome, mas tive apenas o básico. Aprendi que a situação é passageira; o que importa é a essência”, recorda.
Aos 15 anos, após trabalhos informais, entrou para a Zona Verde como atendente e fez um curso gratuito de informática. O contato com o computador XT de tela verde o fascinou. Em vez das baladas, ele se dedicava à tela, desenhando até uma imagem sua emergindo do monitor. Era o início do encontro com um instrumento que mudaria sua vida.
Superando rejeições e construindo uma carreira sólida
Antes de ingressar no setor técnico, enfrentou um episódio marcante: ao buscar vaga de office boy, foi rejeitado após a recrutadora constatar sua carteira de trabalho em branco. Anos depois, voltou para essa mesma empresa, mas agora com uma trajetória consolidada. Assim, atuou por 12 anos, atendendo gigantes como Microsoft, Intel e Samsung, enquanto também dava aulas em escola de tecnologia.
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Essa experiência o levou a criticar a passividade no mercado de trabalho. Para ele, é fundamental que profissionais deixem de ser reféns do emprego e assumam o comando da própria evolução. “Pode não gostar das tarefas, mas deve amar a carreira como escolha consciente”, aconselha.
Fundação da Buysoft e aposta na legalidade
Em 2010, após deixar a diretoria de uma empresa de informática, Clemilson enfrentou dificuldades financeiras severas. Sem reservas, com um carro financiado e contas para pagar, percebeu que seu currículo fechava portas nas empresas menores, que julgavam sua experiência excessiva.
Nesse cenário, decidiu criar a Buysoft em casa, focando num segmento pouco explorado: venda formal de licenças de software corporativo. Na época, a pirataria era dominante, e investir em produtos originais parecia um caminho improvável. Ele preferiu não tentar convencer quem optava pela ilegalidade e focou em atender quem buscava atuar conforme a lei.
O primeiro pedido, em 8 de setembro de 2010, foi de 350 reais. A confirmação da venda foi um momento emotivo para ele, que viu ali um sinal de que sua aposta daria frutos. Em menos de um ano, a Buysoft ultrapassava um milhão em faturamento, e Clemilson recebeu o prêmio nacional de revelação de vendas da Adobe em São Paulo.
Expansão internacional e governança responsável
Hoje, com sede em Maringá e escritórios em São Paulo, Bogotá e Cidade do México, a Buysoft atende mais de 5.500 corporações e cerca de 200 mil usuários em 800 cidades da América Latina. O grupo inclui ainda a fábrica de softwares Beard Rocket e a Liga dos Empreendedores, iniciativa educacional.
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Clemilson destaca que as maiores armadilhas para empresas brasileiras são os atalhos ilegais e a mistura entre gestão familiar e profissional. Ele alerta contra fraudes fiscais e nepotismo amador, reforçando que a contratação deve ser baseada em competência técnica. Outro ponto crítico é o controle financeiro rigoroso, com acompanhamento constante do Demonstrativo de Resultado (DRE) e margens reais para evitar o colapso no fluxo de caixa.
Inteligência artificial como energia essencial do futuro
Parceiro de gigantes como Microsoft, Google, Adobe e Autodesk, Clemilson vê a inteligência artificial (IA) como a próxima grande energia que impulsionará a sociedade produtiva. Ele rejeita narrativas alarmistas sobre desemprego em massa, lembrando que a humanidade sempre enfrentou transformações tecnológicas — da pedra polida à internet — e que a IA se diferencia apenas pela velocidade de desenvolvimento.
A IA será integrada a processos e objetos cotidianos, funcionando como uma ferramenta invisível, mas poderosa. “Ela concede superpoderes analíticos para que pessoas comuns realizem tarefas complexas em segundos”, explica. O conselho é que profissionais deixem o preconceito de lado, aprendam a usar a IA como assistente de produtividade e acompanhem as mudanças para não ficar para trás.
Para Clemilson, o futuro pertence a quem domina a inovação com ética e estratégia, não a quem teme a transformação digital.

