Desafios na Assistência Social no Sistema Penitenciário
A pesquisa conduzida por Claudia Fernandes da Silva, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Política Social da UEL, revela um cenário contraditório na assistência social destinada a pessoas privadas de liberdade no Paraná. Embora a política esteja prevista em lei, sua execução se mostra incipiente, fragmentada e pouco institucionalizada. O estudo foca em como a Política de Assistência Social é acionada e operacionalizada no regime semiaberto e se baseia em entrevistas semiestruturadas com assistentes sociais que atuam em unidades deste sistema.
A população carcerária, que enfrenta questões como pobreza, vínculos familiares fragilizados e acesso limitado a políticas públicas, é um fator central na pesquisa. Claudia destaca que o regime semiaberto oferece uma oportunidade única para examinar essa interface, uma vez que a privação de liberdade convive com a possibilidade de circulação social e acesso a trabalho e serviços.
Resultados Preliminares da Pesquisa
Ainda que a análise de dados não esteja completa, as tendências iniciais são preocupantes. As entrevistas indicam que a relação entre o sistema penitenciário e a Política de Assistência Social não se traduz em uma articulação pública sólida, voltada para a garantia de direitos. A pesquisa aponta a fragilidade dos fluxos formais, a falta de acordos consistentes, a dependência de iniciativas individuais e a dificuldade de acesso à rede socioassistencial, frequentemente mediada por contatos informais.
Além disso, Claudia observa que a carga administrativa e burocrática reduz o tempo dedicado a uma atuação focada na proteção social. Entre as demandas típicas do regime semiaberto estão problemas relacionados à insuficiência de renda, vínculos familiares desgastados, situações de rua e necessidades de acolhimento, demonstrando a complexidade da assistência social nesse contexto.
Um Olhar Sobre a Trajetória da Pesquisadora
A escolha do tema para a pesquisa está fortemente ligada à experiência profissional de Claudia, que atua há mais de 18 anos como assistente social no sistema penitenciário. Sua transferência em 2021 para uma unidade de regime semiaberto em Londrina ampliou sua percepção sobre as dificuldades enfrentadas pelos detentos no acesso a serviços, especialmente os relacionados à assistência social, e evidenciou as fragilidades dos arranjos institucionais.
Com a orientação da professora Evelyn Secco Faquin, a pesquisa já teve reconhecimento no campo acadêmico. Em 2024, Claudia apresentou sua pesquisa no V Congresso Internacional de Política Social e Serviço Social, abordando a interface entre a Política de Assistência Social e o sistema penitenciário brasileiro, ressaltando que a interrelação ainda é embrionária.
Perspectivas e Desafios Identificados
Durante as entrevistas, a pesquisadora ouviu os profissionais sobre os desafios enfrentados. Entre os principais pontos, destacam-se a falta de clareza sobre o papel da assistência social na execução penal, a fragilidade na articulação com a rede socioassistencial e a sobrecarga de trabalho com demandas administrativas. Além disso, os entrevistados relataram a complexidade social das demandas, como questões de renda e saúde mental, que carecem de respostas adequadas por parte das instituições.
Intervenções Externas e a Necessidade de Políticas Estruturadas
Claudia também analisa o papel de entidades religiosas e organizações como a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) no contexto da assistência aos encarcerados. Embora essas entidades possam oferecer apoio, a pesquisadora enfatiza que não substituem a necessidade de uma Política de Assistência Social robusta e institucionalizada.
Uma das questões centrais de seu estudo é a contradição entre a existência de uma política de assistência social reconhecida e sua implementação inconsistente no sistema penal. A pesquisa sugere que para que a proteção social deixe de ser residual, é necessária uma articulação efetiva entre diferentes políticas públicas.
Expectativas Futuras no Sistema Prisional
A proposta do Plano Pena Justa, lançada em 2025, surge como uma resposta a essas necessidades, buscando integrar o sistema penal com outras políticas, como saúde e educação. Claudia acredita que é fundamental acompanhar a implementação desse plano no Paraná e verificar se ele resultará em mudanças concretas na proteção dos direitos dos detentos.

