Artistas e Temáticas da 61ª Bienal de Veneza
A 61ª edição da Bienal de Veneza, que se encontra aberta ao público, está sendo marcada por um vibrante diálogo entre as obras e a história colonial. O artista baiano Heráclito, presente na mostra com a série “Juntó”, ressalta a importância do trabalho curatorial de Koyo, que foi mantido mesmo após seu falecimento. Segundo Heráclito, a proposta de Koyo representa uma conquista significativa para artistas e pesquisadores do Sul Global, como também é o caso do curador camaronês Bonaventure Ndikung, que esteve à frente da 36ª Bienal de São Paulo, em 2020.
Heráclito compartilha suas memórias sobre Koyo: “Estive com ela em Chicago, três meses antes de sua morte, quando ela oficializou o convite a mim e a Eustáquio. Essa experiência foi impactante, pois Koyo era uma pessoa fascinante e, sem dúvida, uma grande amiga. O luto que sinto é profundo, mas sua visão sobre a geopolítica marcada por guerras e imperialismos permanece viva nesta bienal. É uma exposição madura, que desafia os estigmas frequentemente associados à arte não ocidental que tanto questionamos.”
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O artista Neves também elogia a diversidade representada na Bienal, observando que muitos países, que antes não participavam do evento, agora têm voz. “Entendi o conceito que Koyo apresentou, mas somente vendo a exposição pessoalmente consigo perceber a rica conexão entre as culturas. As origens podem ser diferentes, mas o diálogo é evidente, especialmente no que diz respeito à ancestralidade e outras interconexões.”
O Pavilhão Brasileiro e Suas Narrativas
No pavilhão do Brasil, com curadoria de Diane Lima, as obras de Rosana Paulino e Adriana Varejão exploram questões complexas por meio do tema “Comigo ninguém pode”, inspirado numa obra de Rosana. Este título faz referência às diversas simbologias associadas à planta que lhe dá nome, abordando aspectos como colonialismo, fissuras históricas e a relação com a natureza.
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Fonte: belembelem.com.br
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Fonte: reportersorocaba.com.br
Diane Lima destaca a importância desta curadoria que marca um momento inédito: “É a primeira vez que uma curadoria negra é realizada, composta apenas por mulheres, incluindo artistas negras. Isso está em sintonia com o que o mundo espera de um país que é um verdadeiro laboratório racial, que tem testemunhado e enfrentado contínuas violências. Essa mostra busca refletir as estratégias que encontramos para lidar com esses desafios.”
Adriana Varejão, por sua vez, compartilha sua abordagem artística: “Sempre trabalhei com o barroco, que traz uma teatralidade distinta. Ao usar a metáfora do teatro, criei simulações de ruínas, deixando vestígios visuais. Recentemente, tenho feito ruínas que não são apenas de carne, mas também de terra e vegetação, criando uma conexão direta com a obra de Rosana.”
Reflexões sobre Passado e Presente
A filosofia africana, que permeia a narrativa da Bienal, desafia a linearidade do tempo. “Não existe um início, meio e fim”, comenta Adriana. “Enquanto discutimos a escravidão, também enxergamos as atuais tentativas de interceptar embarcações que tentam chegar à Europa, cada vez mais resistente à imigração. Estamos simultaneamente abordando o passado e o presente. A conversa sobre reparações e a natureza interligada com a arte é o que buscamos”.
A 61ª Bienal de Veneza também conta com a participação do carioca Raphael Fonseca, que foi recentemente nomeado curador da 37ª Bienal de São Paulo. Ele é responsável pelo Pavilhão de Taiwan, intitulado “Screen melancholy”, que apresenta obras do artista Yi-Fan Li. A diversidade temática e a riqueza cultural desta bienal tornam o evento um espaço vital para a reflexão sobre arte, história e identidade.

