Casos de Intimidação e Violência na Câmara Municipal
A Polícia Federal (PF) de Londrina está investigando denúncias de violência política de gênero ocorridas na Câmara Municipal de Tamarana, localizada na Região Metropolitana de Londrina. O foco da investigação recai sobre os vereadores Mário Cesar Fabiano, do PSDB, e Anauto Souza de Gouvea, do Republicanos, que tiveram seus celulares apreendidos durante a Operação Liberdade Democrática na última quinta-feira (19). As parlamentares Angélica de Oliveira Lima e Jislaine Pereira Ferraz, ambas do PSD, relataram que enfrentaram ofensas e ataques desde o início de seus mandatos em 2021, além de tentativas de silenciamento e intimidação por parte dos colegas.
De acordo com Angélica Lima, o vereador Anauto do Incrão, que também atuou como presidente da Câmara, cometeu atos de violência política em diversas ocasiões. “Ele me disse que ‘a senhora não vai falar’ e chegou a cortar nosso microfone quando tentávamos nos manifestar. Além disso, não tomou nenhuma providência para coibir as agressões de outros parlamentares durante as sessões”, recordou.
Agravamento das Situações de Abuso
Outro episódio grave ocorreu com o vereador Tega Fabiano, que levou Angélica a registrar um boletim de ocorrência no ano passado. “Ele me ameaçou e disse que não poderia entrar na sala da presidência, afirmando que meus pedidos não seriam atendidos. Era como se me dissesse para esperar por algo que nunca aconteceria”, relatou.
A vereadora afirmou que essa situação teve um “impacto avassalador” na sua vida política. “As palavras de Mário Cesar não só macularam minha imagem, mas também causaram danos irreparáveis à minha trajetória como mãe e educadora”, enfatizou.
A reportagem teve acesso a uma lista elaborada pelos advogados das vereadoras, a pedido da PF, que inclui links para gravações de quatro sessões ordinárias disponíveis no canal da Câmara no YouTube. A advogada Ana Carolina Martinez apontou sete momentos em que presenciou a prática de violência de gênero, como cortes de microfone e parlamentares se referindo às vereadoras de forma pejorativa, chamando-as de “professorinhas”. Segundo Martinez, os vídeos públicos estão sendo analisados para embasar as denúncias contra os vereadores.
Clima de Hostilidade e Desejo de Justiça
As vereadoras relataram que o clima na Câmara piorou após o início das investigações, sentindo-se isoladas e desamparadas. “Nos dizem para ‘procurar nossos direitos’ de forma sarcástica, como se estivéssemos sozinhas nessa luta. Fomos ofendidas repetidamente por outros vereadores, enquanto o presidente Tega Fabiano, que esteve à frente da Câmara entre 2023 e 2024, não tomou nenhuma atitude contra isso”, afirmaram. Alguns, inclusive, as chamaram de “indecentes” e “sem educação”, buscando deslegitimar suas falas e ações.
Em meio a essa situação difícil, Angélica Lima expressou um “sopro de esperança” em relação à investigação. “Continuaremos lutando para que a Câmara Municipal de Tamarana se torne um espaço seguro e respeitoso para todas as mulheres”, disse, reforçando a importância da luta contra a violência de gênero.
Defesa dos Acusados e Consequências Legais
O advogado de Mário Cesar Fabiano, Maurício Carneiro, defendeu seu cliente, afirmando que não há descumprimento da lei por parte dele. Para Carneiro, a operação da PF é “totalmente desnecessária”. Por sua vez, a Justiça Eleitoral já havia aplicado medidas cautelares ao vereador, que não pode manter contato com Angélica e Jislaine fora da Câmara e não pode assumir a presidência da Casa enquanto a investigação está em andamento. O desrespeito a essas condições pode resultar em prisão preventiva.
A advogada das vereadoras, por sua vez, destacou que essas medidas são essenciais para mostrar que a sociedade não tolera mais este tipo de violência. “As consequências são reais para quem pratica a violência misógina”, enfatizou. Ela também criticou a declaração de Carneiro, que minimizou a situação, afirmando que as disputas políticas são normais. “No entanto, a realidade é que apenas as mulheres estão sendo alvos de ataques e silenciamento, enquanto os homens não enfrentam as mesmas dificuldades”, concluiu.

